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domingo, 13 de fevereiro de 2011

A VIZINHA DO LADO



A VIZINHA DO LADO
De: Ysolda Cabral



A falta de objetividade na maioria das pessoas quando fala, até mesmo quando escreve, me agonia e me estressa.

- Não suporto gente prolixa!

Quando encontro alguém assim, se não conseguir fugir no tempo hábil, me refugio no meu “mundo labirinto”, e ao sair pela “porta poesia”, me sinto leve e fresca como um dia de primavera. Então vou embora sem ter escutado uma só palavra.

Entretanto, com Ana Lúcia, minha vizinha, eu não conseguia usar esse recurso, pois à medida que ela ia falando, ficava pegando em mim, me puxando, me sacudindo, pedindo minha opinião... Uma verdadeira agonia!!!

Quando a encontrava na saída pro trabalho, nem por isso... Mas, quando era na volta, sentia até vontade de chorar.

Certa ocasião, depois de um dia de trabalho emperrado (quando nada dá certo) e de enfrentar um engarrafamento dos diabos, num calor infernal, uma fome terrível e com o “xixi” na porta; chego à garagem do meu prédio e corro para o elevador. Aciono o botão de chamada várias vezes. Finalmente o “dito cujo” chega e a porta abre...

- Quem sai dali?!! A Ana Lúcia!!!

E aí; blá, blá, blá, blá, blá, blá... A porta do elevador se fecha e eu fico a mercê dela. Comecei a chorar sem nem perceber. Só me dei conta que estava chorando quando ela me abraçou para me confortar. Ocasião em que, atendeu ao seu celular e falou para o filho que não a esperasse para o jantar, pois não poderia me deixar sozinha naquele estado.

Apesar dos meus protestos, não houve jeito. Ela cancelou o encontro com o filho e subiu comigo para o meu apartamento.

Mal chegamos, corri para o banheiro e só saí de lá refeita.

Com cautela, respirando fundo, fui à procura da minha amiga. Ela tinha ido embora...

Na cozinha, encontrei uma bandeja com um delicioso lanche, preparado por ela e um bilhetinho que dizia: “Se precisar de mim, é só me chamar.”

A partir de então, sempre reservo um tempinho para ouvir, principalmente, quem não tem muito com quem conversar.

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Publicado no Recanto das Letras em 10/02/2011

Código do texto: T2783905